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A identificação com o agressor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.11.16

 

 

Procurava eu aqui alguma coisa de positivo no que aconteceu na noite do dia 9, mas a cada dia que passa desde a eleição de Trump o que surge é o medo. E o que é o medo? Um aviso do nosso sistema límbico de uma situação de perigo para a qual temos de dar uma resposta rápida. No fundo, o medo é o sistema básico de preservação da espécie.


Também a Constituição americana foi construída para garantir:

- a preservação de cada cidadão e a possibilidade de se exprimir livremente, de se realizar pessoalmente, de prosperar e até de ser feliz;

- a convivência pacífica e harmoniosa entre os diversos cidadãos e entre as diversas comunidades;

- a organização de um país por estados e a sua representação equilibrada num governo com diversos filtros do poder.


No entanto, a Constituição americana não foi suficiente para evitar um Hoover ou um McCarthy. E o Al Capone só foi preso pela fraude fiscal.

A liberdade de expressão permitiu o apelo à separação, à delação, à perseguição, à violência, à opressão. Tudo o que a Constituição permite evitar.


É verdade que se aprende com os erros, mas este erro vai sair muito caro, pode até vir a ser um erro fatal. Não apenas para a América, mas para todos nós.

Quem nos pode garantir hoje a mais básica de todas as nossas expectativas: a preservação da nossa espécie?  


Após o aviso, o sinal de alarme do nosso sistema límbico, não nos devemos deixar ficar paralisados nessa double bind.


Arno Gruen está muito actual. Mostra-nos como o agressor se alimenta do ódio e da negação do medo, do sofrimento, da dúvida: a linguagem do poder. Este tipo de personalidade, o agressor (lógica do ganha - perde) verifica-se numa pequena minoria da população mas gravita inevitavelmente à volta do poder. Por isso a encontramos onde o poder se exerce, seja político, financeiro, bélico. 

O mais interessante da sua análise é constatar a tendência para o conformismo na maioria da população (e isto parece verificar-se no geral das populações). É isto que explica entregar o poder ao seu próprio inimigo ou a identificação com o agressor.


Dito assim é assustador, mas é isso que acontece. Também aconteceu em 2011 em Portugal apelando à vinda da troika, vendendo aos cidadãos os benefícios da austeridade, culpabilizando-os pela dívida e fazendo-os sofrer. Para sair desta double bind foi preciso um golpe de sorte senão ainda lá estaríamos sequestrados.

Mas veja-se a situação actual dos gregos, depois de terem sido humilhados pela UE e até pelos outros países membros. Ainda estão sequestrados pela double bind da dívida e do euro. 


Arno Gruen mostra-nos as diversas fases das reacções humanas no caminho da verdadeira maturidade: conformismo - rebeldia - autonomia.

É a autonomia, a responsabilidade por nós próprios e pelos nossos concidadãos do mundo que nos irá permitir sair da double bind da linguagem do poder.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

publicado às 13:38

 

 

 

Uma das vantagens que a maturidade nos dá é a capacidade de adaptação aos desafios que a vida nos apresenta: retirar a lição a partir dos acontecimentos e aproveitar a parte positiva da nova realidade.


É exactamente o que Bernie Sanders faz aqui: manter a atenção concentrada nos assuntos essenciais: as expectativas legítimas da classe média, da classe trabalhadora; dirigir a revolta para quem causou a sua situação actual e não para as outras minorias desfavorecidas; mudar os enormes desequilíbrios económicos e sociais entre o 1% e os 99%; unir as comunidades e trabalhar em conjunto.


Bernie era o candidato de muitos jovens que ficaram sem um verdadeiro representante quando a escolha recaiu em Hillary. É muito interessante a sua mensagem aos jovens: dediquem-se a estas questões, participem, vamos todos contribuir para melhorar a vida de tantos americanos que caíram na pobreza.

 

Na realidade, começamos a perceber desde a noite do dia 9, que os que foram esquecidos e maltratados desde os anos 80 - e sobretudo depois da crise financeira de 2008 -, os que tinham grandes expectativas em relação a Obama e à mudança e ao "yes, we can", não dariam o seu voto a Hillary, ao rosto da continuidade.


A minha primeira curiosidade foi ver a expressão de Obama a receber Trump na Casa Branca. Não me decepcionou desta vez. A sua incrível verve, o seu estilo cool, o seu humor de entertainer, eclipsou-se. Pela primeira vez gaguejou algumas sílabas a informar os jornalistas sobre os assuntos já abordados e de como se disponibiliza para facilitar a transição. Trump é que foi uma surpresa: educado, respeitador e respeitável, a agradecer o que aprendeu nesta primeira conversa.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

publicado às 10:43

Economia parasitária e economia produtiva

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.11.16

 

 

Vale a pena acompanhar a descrição que o economista Michael Hudson faz da "junk economics" e como chegámos aqui. 

Um século bastou para que este tipo de economia predatória e parasita se tornasse dominante e asfixiasse populações, países, regiões, e atirasse para a pobreza milhões de pessoas. Porque foi isso que aconteceu. O desequilíbrio económico produz guerras e lucra com as guerras.


No início do séc. XX os futuristas imaginavam que o capitalismo iria permitir uma expansão da economia de uma forma equilibrada na sua distribuição. Este capitalismo progressivo seria semelhante a uma socialização da economia. 

Marx baseou-se em Adam Smith, John Stuart Mill, os "iluminados" franceses, em que havia uma distinção clara entre lucro ganho (earned income) - salários e lucro -, e o lucro não ganho (unearned income) - donos e arrendatários. O trabalho, a produção, era a base do capital.

 

A "junk economics" é baseada numa reacção a esta distinção, anulando-a: os donos e arrendatários é que ganham o lucro.

A "junk economics" só podia mesmo ser descrita em americano, a lembrar-nos os melhores filmes de gangsters nos anos 30.


O conceito de produção foi completamente adulterado. O parasitismo passou a ser considerado produtivo, porque o parasita faz parte integrante do corpo que parasita e passa a ser considerado fundamental para a economia, como uma parte produtiva.


Como facilmente se percebe, o valor do trabalho e da produção foi encolhendo até à situação actual.

Uma nova economia terá necessariamente de funcionar fora deste esquema. A única forma é através de uma mudança cultural, já em curso.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

publicado às 16:07


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